Admitir o problema foi apenas o início
Capítulo 2: Encarar o monstro (parte II)
Tinha ganho esperança mas ainda nada estava conquistado. Tinha de elaborar um plano. Um plano que me permitisse organizar e respirar…
Continuei a minha busca por conhecimento, para aprender mais, para descobrir formas de sair do buraco. Deparei-me com termos que já conhecia, mas sem nunca ter pensado no que eles realmente significavam. Juros compostos, planos de reforma, investimentos, orçamentos, finanças pessoais…
Aos 20 anos, estas palavras soam a “coisas de adultos”. Aos 40, soam a tempo perdido. Mas a verdade é que, no fundo do poço, estas palavras deixaram de ser conceitos abstratos e passaram a ser ferramentas de resgate.
Como mencionei no capítulo anterior, a primeira ferramenta que comecei a usar foi a Trade Republic, com a estratégia a que chamei “Ordenado em Trânsito”:
Mal recebo o ordenado, transfiro-o quase todo para a minha conta da Trade Republic. Porquê? Porque lá ele rende desde o primeiro dia e o dinheiro não fica preso. Se a conta da luz vence no dia 15, eu só tiro o dinheiro de lá no dia 14. Até lá, cada euro do meu ordenado está a trabalhar para mim, a gerar cêntimos que, no final do mês, são a minha primeira vitória contra o monstro financeiro.
É a diferença entre o dinheiro estar parado a morrer ou estar em movimento a ajudar-me a respirar. E todos estes bocadinhos que acumulo têm um destino: ajudar a construir o fundo emergência.
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Mas ainda havia muito para fazer. Parei de dizer “logo se vê”. Tinha de traçar um plano, mais que isso, um “Orçamento de Guerra”.
Pus todos os meus gastos em cima da mesa. Sem exceções. Olhei para cada linha e fiz a pergunta mais honesta de todas: isto mantém-me viva ou não? Foi assim que criei a minha “Lista Negra”. Separei o que era sobrevivência do que era “lixo”: os jantares fora, as subscrições que não uso, as compras para preencher vazios... O essencial ficou, mas o resto morreu ali.
Aos 40, já não há paciência para dicas de "poupar no café", tem de haver organização e os cortes têm de ser mais profundos. Nessa altura cortei TUDO o que não era essencial. Foi o "NÃO" às aparências e admitir que nesse ano não haveria férias ou jantares fora, nem uma simples saída a um bar com uma amiga. Dizer “não” aos outros foi a única forma de dizer “SIM” a mim própria.
Com o plano traçado, o meu foco dividiu-se em duas frentes de batalha. Não podia apenas pagar dívidas e ficar sem um cêntimo, como também não podia apenas poupar e continuar a ser asfixiada pelas dívidas. Tinha de atacar os dois!
Tracei então como primeiros objetivos:
- Chegar aos 1.000€ de fundo de emergência
- Eliminar um cartão de crédito
Os 1.000€ não eram para me tornar rica, eram para me salvaguardar que um próximo azar (um pneu furado, uma avaria no cilindro) não me fizesse voltar ao cartão de crédito, e assim pôr fim a esse ciclo vicioso.
Defini que este era o “Fundo de Emergência de Nível 1”. O objetivo final seriam 6 meses das minhas despesas, mas para quem está no buraco, pequenos objetivos são mais concretizáveis e dão mais motivação para continuar. Decidi separar um valor fixo por mês para esse fundo. O restante dinheiro que sobrasse do ordenado, era destinado a amortizar o cartão de crédito. Todo o dinheiro de subscrições canceladas, de compras por impulso ou dos jantares que não fiz, só tinha um carimbo: Amortização.
Em relação às dividas, foquei-me primeiro no cartão de crédito, pois era o que tinha o juro mais alto. Para além da mensalidade, todos os meses comecei a fazer um pagamento extra, nem que fosse de apenas 20€. Percebi que cada euro que eu amortizava ali era menos dinheiro que eu “dava” de presente ao banco todos os meses. Era, finalmente, o meu dinheiro a trabalhar para a minha liberdade, e não para o lucro de terceiros.
Ter um plano e uma ferramenta foi um balão de oxigénio, mas não apagou a ansiedade. No próximo capítulo, vou falar sobre o que ninguém conta: o desconforto brutal de viver com o “não” constante enquanto tentamos subir o poço.
Espero por ti no próximo capítulo.
Até lá, resiste!
A Arte de Resistir
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