Como não dar em doida enquanto encaro o monstro (financeiro)
Capítulo 4: A importância de definir o que é inegociável
Eu já treinava antes. Mas, naquela altura, o treino tornou-se um campo de batalha mental. Eu estava lá fisicamente, mas a minha cabeça estava presa nas contas que não batiam certo. Cada repetição vinha acompanhada de uma conta a pagar. A obsessão financeira era um peso extra que nenhum halter conseguia igualar.
Nessa altura, tinha criado um orçamento tão apertado, o meu “Orçamento de Guerra”, que sentia que estava a sufocar.
Para conseguir cumprir esse plano, tinha de abdicar de tantas coisas…
Já para não falar de outra questão: a pressão social.
O que acontece quando o mundo exterior tenta quebrar as nossas regras? Quando aparece aquela amiga a dizer: “É só um jantar de 30 euros, tu mereces descansar” ou “Estás muito obcecada com as contas agora”, ou o clássico “é só hoje”?
Foi aí que percebi que se cortasse tudo, a minha saúde mental ia à vida. Cortar absolutamente tudo o que nos dá prazer não é sustentável, é uma receita para a desistência e para a frustração.
No meio do caos, percebi que precisava de impor limites a mim própria. Regras de sobrevivência que não dependem do meu humor, do saldo da conta ou da opinião dos outros.
Decidi criar os meus Inegociáveis. Aquilo de que não abdico por nada nem por ninguém, porque são os pilares que me mantêm de pé.
- Pagar-me a mim primeiro. Mal o ordenado cai, a primeira transferência é para a minha conta da Trade Republic para construir o meu fundo de emergência. Eu não fico com as "sobras" do final do mês. Eu passei a ser a minha prioridade. Independentemente de tudo.
- Não tocar no fundo de emergência. O nome diz tudo. É para emergências, não para "vontades" ou “caprichos”. É a minha rede de segurança para nunca mais voltar a sentir aquela agonia de não ter onde me agarrar.
- Não abdico do meu café (ou cafés). Os gurus da internet dizem sempre para "cortar no café" para aumentar as poupanças. Eu digo que os meus cafés diários (e são vários) são o que me ajuda a manter a sanidade mental durante este processo.
- O meu treino. O treino deixou de ser o sítio onde penso nas dívidas e voltou a ser o meu templo. Naquele momento, preciso de estar com a cabeça livre, pois é o único momento do dia em que me sinto realmente LIVRE. Manter o meu treino mesmo que o dia corra mal é obrigatório!
- Ler. Sempre adorei ler, mas na correria da vida adulta, deixei o hábito de lado. Parecia que já não tinha paciência. Para sair da obsessão das contas, obriguei-me a ler 10 páginas por dia. E ainda bem que o fiz! A paixão pela leitura voltou e, nesses momentos, a minha cabeça esquece os números e viaja.
Estes são os meus inegociáveis. Não quer dizer que sejam os teus. O que funciona para mim e me mantém equilibrada, pode não ser o que funciona para ti. O segredo não está em copiar a minha lista, mas em descobrires quais são as tuas próprias âncoras, aquelas que te impedem de ir ao fundo quando a maré sobe.
Ter inegociáveis não é teimosia cega. É maturidade. É saber exatamente o que nos mantém de pé e não deixar que ninguém nos tire o chão outra vez. É garantir que não volto para o fundo do poço onde estava.
Aos 40 anos, aprendi que a resistência também se faz a dizer "Não" sem ter de dar justificações. Quando digo "não" a um convite que fura o meu orçamento, não estou a ser antissocial. Estou a dizer "sim" à minha liberdade futura. Percebi que, muitas vezes, as pessoas tentam sabotar a nossa mudança (mesmo sem querer) porque a nossa evolução as confronta com as suas próprias estagnações.
Resistir é saber onde cortar, mas é, acima de tudo, saber o que proteger. Sem estas âncoras, o poço não tem fundo. Com elas, o caminho para cima é apenas uma questão de tempo.
E tu, quais são os teus inegociáveis?
Espero por ti no próximo capítulo.
Até lá, resiste!
A Arte de Resistir
Nota: Este texto reflete a minha jornada pessoal e não constitui aconselhamento financeiro. Ao utilizares o meu link de convidado, recebo uma comissão que ajuda a manter este projeto independente, sem qualquer custo extra para ti.

Comentários
Enviar um comentário