Eu também falho
Capítulo 5: As recaídas
Gostaria de vos dizer que desde que comecei esta jornada para recuperar a minha vida nunca mais olhei para trás. Mas é mentira.
A verdade é que, desde que comecei, já houve várias recaídas. Elas acontecem, quase sempre, nos momentos de maior cansaço ou fragilidade emocional.
Aos 40, o peso de “ter de dar certo” às vezes esmaga a disciplina. Uma semana de trabalho horrível, uma discussão em casa, e de repente o cérebro pede aquela recompensa imediata que o orçamento não permite. É o “eu mereço” depois de um dia de cão, é aquele clique rápido numa promoção que aparece no e-mail quando só queríamos desligar o cérebro.
A recaída nem sempre é sobre falta de dinheiro, às vezes, é sobre falta de ar. A compra é um escape para uma pressão que já não aguentamos carregar.
Mais do que o gasto extra em si, o que dói mais é a vergonha e a culpa que vêm a seguir. A ressaca. O sentimento de que já estraguei tudo outra vez e que, por isso, mais vale perder-me por completo. É o famoso “perdido por cem, perdido por mil”.
A nossa relação com o dinheiro é muito mais emocional do que racional. Aprendi isso no livro A Psicologia do Dinheiro, de Morgan Housel, onde ele explica por que razão até as pessoas mais inteligentes tomam decisões financeiras parvas.
Ele diz algo libertador: “Ninguém é maluco”. Todos estamos apenas a tentar lidar com as nossas emoções com as ferramentas que temos.
A mudança não é uma linha reta. Ter recaídas não significa que voltamos à estaca zero. Significa apenas que somos humanos. Elas fazem parte do processo, mas não são o fim dele. E sejamos realistas, as recaídas vão sempre acontecer.
Ao perceber isso, hoje tento ser mais moderada e ponderada. Penso sempre duas vezes antes de adquirir qualquer coisa de que não precise verdadeiramente. Mas a principal diferença de antes para agora é que hoje eu tenho um plano e uma estrutura. Já conheço o caminho de volta. É aqui que reside a importância de termos uma estratégia: ter uma linha para nos orientar quando cometemos erros.
E tenho uma regra que me impus a mim própria, não deixo que uma exceção se repita duas vezes seguidas. Se hoje, por algum motivo, eu comprei algo desnecessário por impulso, não permito que isso se repita amanhã ou no mês seguinte. A exceção nunca pode ser um hábito. Tem de ser rigorosamente uma EXCEÇÃO.
Porque uma vez é um erro, duas vezes é o início de um novo padrão. O nosso cérebro adora o caminho do menor esforço. Se eu deixar a porta aberta dois dias seguidos, ele vai assumir que o plano antigo já não vale nada.
Resistir não é sobre nunca cair. É sobre a velocidade com que nos levantamos depois das quedas.
Se o monstro do gasto impulsivo te apanhou ontem, não tentes fugir dele. Abre a app do banco, encara o número e aceita-o. Fugir só alimenta a ansiedade. Tenta perceber se o que te fez cair foi o cansaço, a carência ou a fome, e simplesmente faz um reset. Hoje é um novo dia e o plano continua lá, à tua espera. Sem dramas, sem castigos exagerados, apenas o regresso ao plano.
E tu, já sentiste aquela "ressaca" emocional depois de um gasto por impulso? Partilha comigo nos comentários: qual é o gatilho que mais te faz tropeçar no plano?
Espero por ti no próximo capítulo.
Até lá, resiste!
A Arte de Resistir
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