Porque é que mudar custa tanto?
Capítulo 3: Aguentar o desconforto
Dar os primeiros passos na organização das minhas finanças, trouxe-me imediatamente uma sensação de alívio. Mas, muito rapidamente também, veio uma sensação de desconforto.
Juntar os primeiros euros foi fácil. O difícil foi continuar a juntar quando o entusiasmo inicial passou. E mais difícil ainda foi não gastar essas pequenas poupanças conquistadas quando a vida apertou, ou até mesmo quando estava um pouco aborrecida.
As mudanças e o crescimento acontecem de uma forma tão lenta, que, às vezes, até parece não estamos a sair do sítio. É certo que são pequenas vitórias sim, mas ao mesmo tempo parecem tão insignificantes, que nos levam a perder a motivação.
A verdade é que ninguém nos diz nos livros de finanças que, aos 40, o processo de “dar a volta” é profundamente desconfortável. Dói. Não é apenas o cortar as despesas, é cortar pedaços de uma identidade que construímos durante anos.
O desconforto tem várias caras.
- Tem a cara do “não” que tenho de dizer aos amigos quando o convite é para um simples jantar de 30 euros que eu não posso (nem quero) pagar.
- Tem a cara da ansiedade de abrir a app do banco e ver que o monstro da dívida é grande.
- Tem a cara da vergonha de sentir que estou a recomeçar quando o mundo espera que eu já estivesse a descansar.
Mas este era o momento de RESISTIR.
Viver em “modo sobrevivência” é um exercício de resistência brutal.
Aos 20, mudar é uma aventura. Aos 40, mudar é um resgate de emergência. O desconforto de encarar o extrato hoje é horrível. Mas e o desconforto de chegar aos 60 e perceber que o monstro engoliu a nossa liberdade? Esse é assustador. O preço de não mudar agora é o custo de uma vida inteira vivida de joelhos.
Aos 40, resistir é aguentar o desconforto de ser aprendiz quando devíamos sentir-nos mestres. É aceitar que, para sermos livres amanhã, temos de parecer “os tesos” ou “os aborrecidos” hoje.
Mas como é que se negoceia isso no dia a dia sem enlouquecer? Como é que se resiste à “comichão” do gasto impulsivo num dia que correu mal, ou à tentação de um take-away só porque estamos exaustos?
Aprendi que a motivação não resolve tudo. A motivação é apenas uma ilusão passageira. O que realmente sustenta a mudança é a estrutura e o nosso ambiente.
Foi no livro “Hábitos Atómicos”, de James Clear, que comecei a entender que mudar pode ser mais fácil se deixarmos de tentar mudar tudo de uma vez só. O segredo está em mudar pequenos comportamentos, um de cada vez, para que se vão “engatando” uns nos outros até que tudo pareça fluído. Como diz o autor: “Se fores 1% melhor todos os dias, acabarás 37 vezes melhor no final de um ano”. O sucesso é o produto de hábitos diários, não de transformações únicas na vida.
Este livro também me ensinou que a disciplina (ou a falta dela) é, muitas vezes, uma questão de “design”. Se o teu ambiente está montado para te fazer gastar, a tua vontade vai acabar por ceder. O ambiente à tua volta é o que te empurra para ceder: as notificações de apps de compras, o cartão guardado no browser ou as newsletters de promoções. É como tentar fazer dieta com a despensa cheia de chocolates: quando a vontade chegar, vais ceder.
Dica prática: Limpa o teu ambiente.
Eu apaguei os cartões do browser, desinstalei todas as apps de compras e deixei de andar com o cartão de crédito na carteira.
Agora, se me encontrar numa situação de tentação, já não tenho as coisas à mão para ceder. Criei o obstáculo que o meu cérebro precisava para parar. É nesse momento de pausa que a minha liberdade começa.
Agora sei que o desconforto que sinto hoje é o preço a pagar pela minha liberdade no futuro. E eu decidi que, por muito caro que seja, não vou passar o resto da vida a pagar os custos da minha própria inércia.
É hora de mudar, aguentar e RESISTIR.
Se não te dói nada, é porque ainda estás no mesmo lugar!
E tu, que sistema vais mudar hoje para parar de cair nas mesmas tentações? O que é que vais tirar do teu caminho para finalmente conseguires resistir?
Espero por ti no próximo capítulo.
Até lá, resiste!
A Arte de Resistir
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