A necessidade aguça o engenho

 

Capítulo 7: O dia em que fui picheleira 


Quando estamos no fundo do poço, parece que tudo nos acontece. E em série. Parece que tudo avaria ao mesmo tempo.


Aqui há uns tempos, dei por mim com a sanita a verter água para o chão. Entrei em contacto com alguns picheleiros que me tinham recomendado e deparei-me com dois cenários: nenhum tinha disponibilidade imediata e, no mínimo, teria de pagar 60€ só pela deslocação, fora a mão de obra e as peças.


Entrei logo em pânico. Aquele pânico gelado de pensar em quanto me ia custar. Mais um gasto extra que eu não tinha como pagar, a não ser com o cartão de crédito (mais uma vez). 


Passadas umas duas horas, mais calma, decidi ir investigar a situação. Tentar descobrir de onde vinha o problema. Percebi que o problema não era a sanita em si, mas sim os dois parafusos que uniam o tanque à base, as borrachas estavam gastas e já não isolavam nada. Fui para o YouTube tentar perceber o que poderia eu fazer. Decidi arriscar. Fui comprar uns parafusos (que me custaram 4€) numa loja de ferramentas e mãos à obra. Não foi à primeira tentativa, mas foi à segunda. Substituí aqueles parafusos, apertei tudo e… quando abri a água novamente não vertia. 


CONSEGUI 🎉


Foi uma sensação de superação espetacular. A satisfação de resolver um problema com as próprias mãos e quase zero euros foi indescritível.


Esta pequena vitória levou-me a uma reflexão: há um fenómeno estranho que acontece quando o chão nos desaparece debaixo dos pés. O pânico dá lugar a um instinto de sobrevivência. Afinal, o engenho não nasce apenas da vontade de criar, mas também da necessidade de não sucumbir. 

A necessidade obriga-nos a inventar o que o conforto nunca nos permitiu imaginar. 

A verdade é que eu nunca me teria aventurado se tivesse dinheiro na altura. A abundância e o conforto tornam-nos preguiçosos. A facilidade com que substituímos algo ou chamamos algum técnico tira-nos a capacidade de pensar e improvisar.

Naquela tarde, não consertei apenas uma sanita. Comecei a consertar a minha própria perceção de limites. Se conseguia fazer aquilo com 4€, o que mais seria eu capaz de reconstruir?


A Grande Lição:

Nesse dia, não poupei apenas 80€ ou 100€. Ganhei autonomia. Ganhei a prova de que muitos dos problemas do dia-a-dia se resolvem com paciência e curiosidade, e não com o cartão de crédito.

A necessidade obriga-nos a sair da cadeira, a sujar as mãos e a deixar de sermos consumidores passivos.


No fundo, percebi que esta jornada não é apenas sobre "cortar despesas", mas também sobre ganhar novas competências e tornar-me uma pessoa muito mais capaz.


E por aí? Qual foi a última coisa que aprendeste a resolver ou a consertar porque a necessidade te obrigou a isso?



Espero por ti no próximo capítulo.

Até lá, resiste!


A Arte de Resistir

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