Como Gerir Melhor o Dinheiro: Porque ganhar mais não resolve tudo
Durante anos acreditei que o meu problema financeiro tinha uma solução simples: ganhar mais dinheiro. Se o salário subisse, tudo se resolvia. Nunca me tinha perguntado a mim própria como gerir melhor o dinheiro que já tinha.
E na teoria faz sentido: mais dinheiro, vida melhor. É o que a maioria de nós acha, porque crescemos com esta ideia.
E isso não acontece por acaso. É a forma como a maioria de nós foi educada para pensar sobre dinheiro.
Ninguém nos ensina a gerir o dinheiro (educação financeira na prática)
Crescemos numa cultura onde falar de dinheiro ainda é tabu. Os pais raramente falam de finanças com os filhos, mas muitas vezes discutem por dinheiro à frente deles.
A escola também não nos ensina o que é inflação, juros compostos ou a diferença real entre poupar e investir. Chegamos à vida adulta sem os conhecimentos básicos para tomar decisões financeiras conscientes.
E ao mesmo tempo somos bombardeados pela mensagem oposta.
As redes sociais vendem-nos um estilo de vida que não é o nosso. O marketing diz-nos que merecemos mais, que podemos ter tudo já, que o crédito é fácil.
E é mesmo — os últimos créditos que fiz foram aprovados em 5 minutos literalmente! Simulei na app, pedi, e o dinheiro estava na conta. Sem fricção, sem reflexão, sem aviso.
Ninguém nos ensina a gerir dinheiro. Mas ensinam-nos a pedi-lo emprestado em 5 minutos.
O momento em que pus os números no papel (e percebi onde estava a perder dinheiro)
Sempre tive vontade de poupar. Tinha a ideia de juntar algum dinheiro para algum imprevisto. Mas isso nunca acontecia, porque gastava antes de juntar.
Sem objetivos concretos, o dinheiro não tem destino. Aparece e desaparece. E quando não chega, o cartão de crédito preenche o espaço — com juros altos e uma conta que chega mais tarde.
Houve uma vez, um momento real de necessidade, em que me vi sem dinheiro e sem plafond no cartão de crédito. Senti-me totalmente perdida.
Imediatamente, o primeiro pensamento foi: "preciso de ganhar mais dinheiro".
E foi mesmo disso que fui à procura no YouTube, como conto com mais detalhe no artigo onde partilho o meu orçamento de guerra aos 40 anos. Nessa altura o YouTube passou a ser a minha Netflix.
Encontrei muitas formas de ganhar dinheiro extra, de trabalhar mais... mas percebi logo uma coisa muito importante: nenhuma destas formas de ganhar mais dinheiro ia resolver a minha vida naquele momento, porque eu precisava de dinheiro para "ontem", não para daqui a um mês ou dois.
Foi aí que percebi que a única coisa que podia fazer naquele momento era olhar para o que eu tinha exatamente e ver o que podia cortar.
Sentei-me com os números, pus tudo, mas mesmo tudo num papel e olhei com olhos de ver. Foi um raio-x total da minha situação.
Fiz uma lista de todas as despesas e gastos que tinha. E comecei a separá-los em duas categorias: essenciais e não essenciais. Precisava de saber onde estava a gastar e porquê. E o que podia cortar de imediato que me permitisse ter uma folga financeira.
Como Gastar Melhor: 2 Passos Práticos de Organização Financeira
Depois de pôr tudo no papel, tudo começou a ficar mais claro. Consegui quase imediatamente ver que muitas daquelas despesas, não eram de todo despesas essenciais. Eram excessos, puro consumismo.
Se começasse a cortar uma grande parte daquelas despesas não essenciais, ia sobrar dinheiro!
Ou seja, antes sequer de pensar em ganhar mais, tinha de organizar a casa primeiro.
E foi o que eu fiz.
1. Cortei despesas não-essenciais
O primeiro passo foi criar todos os meses um orçamento fixo, sempre a detalhar todas as despesas. E cortar todas as despesas de que não precisava na realidade.
Nesta secção estou a falar de subscrições de tv, netflix, jantares fora, saídas noturnas, compras por impulso, etc.
Este hábito ainda hoje mantenho. Todos os meses faço um balanço financeiro para perceber onde gastei, quanto consegui poupar e o que posso melhorar no mês seguinte.
2. Negociei despesas fixas e essenciais
Depois de ter eliminado tudo o que não era essencial, veio a parte de tentar baixar as despesas fixas.
A primeira que fiz foi negociar o crédito habitação. Aqui pedi ajuda a um intermediário de crédito. Consultei especificamente o Dr Finanças. Era o único que conhecia na altura, mas existem várias opções. É totalmente gratuito para o cliente, e eles ajudam com todo o passo a passo a seguir, bem como de papelada a tratar.
Como resultado desta renegociação, consegui baixar a prestação da casa cerca de 130€/mês.
Mais tarde também mudei o fornecedor de luz e de telecomunicações e consegui uma poupança de cerca de 10€ e 35€ respetivamente.
Consegui baixar despesas que nunca tinha questionado.
Às vezes, basta uma chamada ou uma pesquisa para perceber que estamos a pagar mais do que devíamos.
A partir daqui, já comecei a olhar para as minhas despesas com outros olhos.
Há uma diferença enorme entre uma despesa que traz valor real à tua vida e uma despesa por impulso, por hábito, ou porque o marketing te convenceu que precisavas. A maioria de nós nunca parou para fazer essa distinção. E faz toda a diferença.
Eu passei a gastar com intenção. Agora já sobrava dinheiro. E não foi por ter passado a ganhar mais dinheiro.
O que aprendi sobre como gerir melhor o dinheiro
Hoje olho para trás e percebo que, se tivesse ganho mais dinheiro antes de mudar a minha forma de o gerir, provavelmente teria cometido os mesmos erros. Talvez gastasse mais, contraísse mais crédito e continuasse a adiar as decisões que realmente faziam falta.
A minha recuperação financeira não começou com um aumento de salário. Começou no dia em que deixei de fugir aos números e decidi assumir a responsabilidade pela minha situação. Foi ao olhar para os números, cortar despesas desnecessárias e renegociar custos fixos que comecei a recuperar o controlo.
Aí percebi que organizar as finanças não é viver em privação. É dar um propósito ao dinheiro e fazer escolhas mais conscientes.
Se estás à espera de ganhar mais dinheiro para começares a mudar, talvez valha a pena fazeres uma pergunta diferente: o que podes fazer hoje com o dinheiro que já tens?
Não precisas de ter um salário perfeito nem de ser especialista em finanças. Eu também não era. Comecei depois dos 40, com um trabalho normal e muitos erros pelo caminho.
Se eu consegui dar o primeiro passo, acredito que tu também consegues.
E tu? Qual foi o momento em que começaste a olhar para o teu dinheiro de forma diferente? Conta-me nos comentários. Gosto mesmo de conhecer as histórias de quem está desse lado.
Espero por ti no próximo artigo.
Até lá, resiste!
A Arte de Resistir
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