Pagar o crédito habitação até à reforma: o objetivo financeiro que nunca tinha imaginado

Caderno com lista de objetivos financeiros (crédito pessoal, investimentos, casa, reforma, liberdade), com uma casa em madeira e vista sobre o rio ao pôr do sol

No mês passado, durante as férias, tive tempo para desligar das rotinas, viajar, descansar, mas aproveitei também para fazer uma reflexão sobre o meu percurso deste ano até aqui. O que fiz, o que está a funcionar e a falhar, o que já atingi e o que ainda falta atingir.

Depois de olhar com atenção para os meus números e de pensar bastante sobre os próximos passos, tomei uma decisão: parar temporariamente de investir para dar um impulso maior ao pagamento do crédito pessoal.

Quero livrar-me desse peso o quanto antes para, depois, poder dedicar-me a 100% aos meus próximos objetivos: investir mais e melhor e preparar a minha reforma — uma reforma onde o crédito habitação vai ter um papel que nunca tinha imaginado.


O que os números do ano me mostraram

Quando olhei para os meus números do ano, a primeira coisa que percebi foi que consigo ser consistente. Mês após mês, consegui cumprir o orçamento sem grandes desvios.

Consegui manter a consistência na amortização do crédito pessoal, nos investimentos e na construção do fundo de emergência. Sem falhar um único mês!

Claro que isso teve um preço: abdiquei de muita coisa, como jantares fora, saídas com amigas, roupa... E até de coisas de que realmente preciso. Por exemplo, o meu tablet sofreu uma queda violenta no final do ano passado e ficou partido num dos cantos, com o ecrã um pouco saliente e várias rachadelas. Preciso de um novo há mais de um ano, pois não tenho computador, e é no tablet que faço tudo o que preciso. Mas tenho vindo a adiar a compra em prol de um objetivo maior. Comprei uma capa de silicone, daquelas tipo as de telemóvel que envolvem bem os cantos, e tem dado para o gasto.

O que mais me impressionou foi perceber que tudo isto não me custou assim tanto. A vontade de eliminar as dívidas superou, em larga escala, o desejo de gastar dinheiro em coisas supérfluas.

E foi aqui que deu o "clique": se consigo manter este ritmo sem sentir que estou a sacrificar a minha vida, porque não usá-lo totalmente a meu favor?


Do "impossível" ao "possível"

Durante anos, olhei para o crédito habitação como uma renda inevitável que ia ter para o resto da vida. Até 2024, a minha literacia financeira era praticamente nula. Em 2020, renegociei o crédito apenas para pagar menos por mês e aliviar a carga, sem procurar a opção matematicamente mais eficiente.

O resultado? Fiquei com uma taxa fixa de 1,35% durante 10 anos.

Sem saber, fiz o melhor negócio que podia ter feito. Tenho passado entre os pingos da chuva quando as taxas Euribor dispararam, com a minha taxa fixa até 2030. 

Só hoje em dia é que tenho verdadeira noção do que isso significou!

Com o passar dos anos, e depois de ultrapassar a barreira dos 40, a reforma começou a pesar-me na cabeça. Até aí, nunca tinha pensado nisso nem tinha um único cêntimo poupado. Comecei a acompanhar pessoas do movimento FIRE (Financial Independence, Retire Early) e a forma como preparam o futuro. Foi isso que me despertou a vontade de começar a investir, mesmo ainda tendo dívidas ao barulho.

Há cerca de 3 ou 4 meses, ouvi um episódio do podcast Contas Poupança em que o Pedro Andersson explicava que o seu principal complemento de reforma seria a amortização e redução drástica do crédito habitação. Na altura não fez sentido imediato, mas a ideia ficou a "moer".

Foi durante a acalmia das férias que tudo encaixou. Fiz um exercício simples de poupança mensal e percebi: com esforço, é totalmente possível.


Papel e caneta: as contas a 10, 15 e 20 anos

Peguei em papel e caneta e desenhei vários cenários para a distribuição do meu dinheiro. Foi aí que comecei a olhar para o crédito habitação não como um fardo, mas como um objetivo real.

Quando eliminar o crédito pessoal, fico com cerca de 275 € livres por mês. 

E então fiz contas: 

275 € × 12 meses = 3 300 € / ano

3 300 € × 10 anos = 33 000 €

3 300 € × 15 anos = 49 500 € 

3 300 € × 20 anos = 66 000 € (que é mais do que o valor em dívida do crédito habitação nessa altura, pelas minhas estimativas, cerca de 58 000 €)

E é esta projeção a 20 anos que muda tudo: aos 62 anos, vou estar incrivelmente perto da idade oficial da reforma. Só em contribuições teria acumulado 66 000 €. Ter um pé-de-meia acumulado nesta ordem de grandeza dá uma margem de manobra e uma paz de espírito gigantesca para enfrentar essa fase da vida.



💡 Faz o teu exercício de papel e caneta

Se quiseres experimentar, foi isto que fiz:

  • Vê quanto te sobra por mês, depois de todas as despesas fixas e do orçamento. Não tem de ser ao cêntimo, mas usa números reais.
  • Identifica quando vais libertar dinheiro, por exemplo quando acabares de pagar um crédito.
  • Testa 2 ou 3 cenários. Quanto podes pôr de lado por mês? Durante quantos anos? Quanto dá no fim?
  • Compara com o teu objetivo e escolhe o cenário mais realista. Com esforço, mas realista.

Isto é o que faz sentido no meu caso. A tua situação pode ser diferente, por isso faz as contas com os teus números.



Mas o que fazer afinal com o dinheiro acumulado?

Depois de eliminar o crédito pessoal, os 275 € que ficam livres todos os meses terão um destino definido: um novo ETF acumulativo, pensado exclusivamente para este objetivo.

A ideia é deixar este dinheiro trabalhar durante os 15 a 20 anos seguintes, aproveitando o poder dos juros compostos e construindo, ao longo do tempo, um capital que possa servir para liquidar o crédito habitação ou funcionar como complemento à reforma.

Bem sei que, muito possivelmente, esta não é a decisão financeira matematicamente mais rentável. Os manuais de finanças diriam para deixar o dinheiro a render onde a taxa seja superior à do crédito.

No entanto, há duas coisas que as tabelas de Excel não contam:

Os custos escondidos: O crédito habitação não custa apenas a prestação mensal da casa. Custa também o seguro de vida associado, um encargo que vai aumentando bastante à medida que os anos passam e a idade avança. Ao eliminar a dívida, elimina-se também este peso acrescido.

O fator psicológico: Saber que posso chegar à reforma sem obrigações mensais pesadas é um alívio indescritível. A tranquilidade de ter um teto garantido e zero dívidas vale muito mais do que qualquer percentagem extra de rentabilidade num gráfico.

Por isso, não estou a tentar encontrar a estratégia matematicamente perfeita. Estou a tentar encontrar uma estratégia que faça sentido para a minha vida, para os meus objetivos e para a paz de espírito que quero ter no futuro.


O meu plano detalhado em 3 etapas 

Para que tudo isto funcione, tracei um plano por fases, estruturado e realista:

Fase 1 — Foco absoluto no crédito pessoal (até ao final de 2027)

Objetivo: Antecipar a liquidação total do crédito pessoal para o final de 2027, ou antes mesmo, em vez de fim de 2028, como inicialmente tinha previsto.

Para isso vou:
  • Parar temporariamente os novos investimentos.
  • Canalizar todo o excedente financeiro mensal para abater o crédito pessoal.
  • Usar a grande maioria dos subsídios de férias e de Natal para dar um boost extra e amortizar valores maiores de uma só vez.
Mas não vou ficar apenas pelo excedente mensal. Vou fazer o possível (e o impossível) para acelerar este processo. E já comecei este mês: tenho vendido na Vinted coisas que já não uso (hoje mesmo vai um quadro) e tenho feito pequenas tarefas online. Rende pouco, mas cada euro conta e vai direitinho para o crédito. No próximo ano, estou também a ponderar umas férias domésticas, mais perto de casa e muito mais baratas.


Fase 2 — Retomar investimentos e focar na reforma (a partir de 2028)

Retomar os meus investimentos normais, mantendo a estratégia para os meus objetivos habituais.

Com o crédito pessoal pago, libertam-se os 275 € por mês: canalizar este valor para um novo ETF acumulativo focado exclusivamente na casa e na reforma, aproveitando os juros compostos ao longo dos 15 a 20 anos seguintes.


Fase 3 — Revisão em 2030 e decisão final (60–62 anos):

Até 2030, com a taxa fixa de 1,35%, não faz sentido amortizar o crédito habitação. Quando a taxa fixa terminar, volto a fazer as contas: se as condições forem favoráveis, mantenho o plano e deixo o ETF a crescer; se a taxa subir muito, ponho em cima da mesa amortizar parte da dívida.

Aos 60–62 anos, tomo a decisão final: ou uso o capital acumulado no ETF para liquidar a casa, ou mantenho o investimento a render como complemento mensal à reforma.


Como estou a olhar para a reforma agora

Antes de começar a minha jornada de recuperação financeira, nem sequer pensava na reforma.

Depois, quando comecei a aprender e a perceber mais sobre literacia financeira, a reforma começou a assustar-me.

Hoje, já tenho outra mentalidade e assumi uma nova postura:

Mais ativa. Já não deixo a reforma ao acaso, estou a construir o meu próprio caminho.

Com poder de escolha. Aos 60 ou 62 anos, quero ter a opção de abrandar o ritmo ou parar, se assim o desejar, em vez de trabalhar por necessidade.

Na procura da paz de estar livre de dívidas. Saber que posso chegar aos 62 anos com a casa liquidada (ou com o capital necessário para a liquidar) tira-me um peso enorme dos ombros.

E é por isso que hoje me sinto muito mais esperançada em relação ao futuro.

No fundo, este novo objetivo nasceu de uma coisa muito simples: percebi que sou capaz.

Capaz de cumprir um plano, de manter a consistência e de abdicar de algumas coisas no presente para construir algo que considero mais importante para o meu futuro.

Não sei se este será o caminho financeiramente mais rentável. Sei, no entanto, que é um caminho que neste momento faz sentido para mim.

Quero continuar a investir, quero preparar a minha reforma e quero, acima de tudo, chegar a essa fase da minha vida com mais liberdade e menos pesos às costas.

Talvez daqui a alguns anos olhe para estas contas e perceba que faria sentido ter tomado outras decisões. E está tudo bem. A minha situação financeira também vai mudando, e o meu plano poderá mudar com ela.

Por agora, tenho um novo objetivo, um plano para lá chegar e, pela primeira vez, a sensação de que aquilo que antes parecia impossível pode, afinal, estar ao meu alcance.


E tu, já fizeste as contas à tua reforma? Levas em conta o fator psicológico ou olhas apenas para os números?



Espero por ti no próximo artigo.

Até lá, resiste!


A Arte de Resistir



Nota: Isto é o meu caminho e não aconselhamento financeiro. A tua situação é diferente da minha.

Comentários

  1. Acho que é um excelente plano!
    Se estivesse na mesma situação (tivesse um crédito à habitação) acabaria com ele o quanto antes. Aliás é o meu plano: quando tiver um crédito à habitação é para acabar com ele o quanto antes!! :-)

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    1. Obrigada pelo apoio. A verdade é que nunca tinha pensado nisso. Sempre achei que ia ter o crédito habitação praticamente toda a vida. Mas agora, à medida que vou aprendendo a lidar com as minhas próprias finanças pessoais, cada vez quero mais esse objetivo. Não há dinheiro ou investimento nenhum, que pague a tranquilidade de ter um teto pago.

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  2. O que interessa é ter um plano! E os planos podem sempre ser ajustados ao longo do caminho... e não há problema nenhum nisso 😊

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